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O cerco às terras indígenas: o que três décadas de expansão do agronegócio revelam no Planalto Santareno

No oeste do Pará, a valorização da terra, o crédito rural e a infraestrutura para exportação se articulam à expansão da soja e à pressão sobre os territórios e os modos de vida indígenas.

Mulher Munduruku em área de roçado tradicional no Planalto Santareno
Foto: Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Imagem publicada na reportagem sobre a pressão da soja sobre o povo Munduruku do Planalto Santareno.

A expansão do agronegócio de grãos não transforma apenas a paisagem. Ela envolve valorização da terra, crédito rural, infraestrutura, desmatamento e pressão crescente sobre os territórios e os modos de vida das comunidades indígenas.

Uma pesquisa realizada junto a comunidades Munduruku e Apiaká do Planalto Santareno, no Pará, acompanha aproximadamente três décadas desse processo e mostra como mecanismos econômicos e políticos se articulam na transformação do território.

A terra valorizou mais de 800%

Entre 2002 e 2023, o preço da terra na região passou de aproximadamente R$ 1.520 para R$ 13.766 por hectare — uma valorização superior a 800%. Esse movimento acompanha a transformação da terra em ativo econômico e a expansão da fronteira agrícola.

O crédito acompanha a expansão da soja

Entre 2013 e 2025, o Pará recebeu R$ 61,09 bilhões em crédito rural. Desse total, R$ 10,3 bilhões foram destinados à produção de soja. Nos municípios de Santarém, Belterra e Mojuí dos Campos, a soja respondeu, respectivamente, por 31,38%, 35,90% e 44,56% do crédito rural no período.

A infraestrutura conecta o território aos mercados internacionais

O Porto da Cargill em Santarém, a pavimentação da BR-163 e os terminais de transbordo de Miritituba ampliaram a circulação dos grãos e integraram a região aos circuitos nacionais e internacionais de commodities. A infraestrutura não é apenas consequência da expansão agrícola: ela também cria condições para que determinadas formas de uso e ocupação do território se consolidem.

Vista aérea do contraste entre a vegetação e a área aberta para o cultivo de grãos no Planalto Santareno
Vista aérea do território e da expansão das áreas agrícolas. Foto: Cimi. Veja a reportagem original para mais informações sobre o contexto das imagens.

Os impactos chegam ao cotidiano das aldeias

Nas áreas estudadas, a expansão das monoculturas aparece associada a contaminação de águas, aplicação de agrotóxicos nas proximidades das moradias, impactos sobre cultivos e animais, desmatamento, cercamento de áreas, destruição de sítios de importância cultural e restrições à circulação pelo território.

Os impactos atingem também a alimentação. A alteração dos cursos d’água, a contaminação e a redução dos espaços utilizados pelas comunidades afetam plantas, animais e cultivos e, consequentemente, os sistemas alimentares tradicionais e a soberania alimentar.

Um ciclo que se retroalimenta

Desmatamento → abertura de novas áreas → valorização da terra → acesso ao crédito → expansão da soja → pressão por novas áreas.

É esse movimento que o pesquisador Raoni Fernandes Azerêdo, integrante do NECOOP e um dos autores do estudo, identifica como um processo de “cerco às terras indígenas”.

“O que mais me chamou a atenção foi o cerco às terras indígenas. Há um ciclo que se retroalimenta: o desmatamento abre espaço para as commodities, a terra se valoriza, essa valorização facilita o acesso ao crédito rural, que financia mais soja e pressiona por novas áreas.”— Raoni Fernandes Azerêdo, pesquisador do NECOOP e coautor do estudo

Na avaliação do pesquisador, a pressão envolve agentes econômicos e relações políticas e institucionais, além de práticas que atingem diretamente o cotidiano das comunidades, como a aplicação de agrotóxicos perto das moradias e das áreas de agricultura familiar.

“O que está em risco é a própria reprodução da vida das famílias: a segurança alimentar, o território, os modos de existir.”— Raoni Fernandes Azerêdo

A pesquisa mostra como a expansão de uma determinada forma de produção pode alterar as condições materiais de reprodução da vida, a autonomia territorial e os sistemas alimentares das comunidades. O estudo também identifica processos de autodemarcação, mobilização política, fortalecimento identitário e resistência.

Uma questão que também aparece no Paraná

O caso estudado no Planalto Santareno tem história e características próprias e não deve ser simplesmente equiparado a outras situações. Ainda assim, questões relacionadas à pressão da agricultura empresarial sobre territórios indígenas também aparecem no Paraná, inclusive na Terra Indígena Rio das Cobras, na região de Nova Laranjeiras.

A aproximação entre os casos permite levantar uma questão para o debate: o que acontece com a autonomia produtiva, alimentar e territorial dos povos indígenas quando a agricultura empresarial avança sobre seus territórios?

Para aprofundar

Os resultados apresentados nesta matéria fazem parte do artigo:

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AZERÊDO, Raoni Fernandes et al. “Agronegócio de grãos no Planalto Santareno, Pará: três décadas de impactos socioambientais”. Terra Livre, São Paulo, ano 41, v. 1, n. 66, jan.-jun. 2026.

Reportagem e fotografias: Conselho Indigenista Missionário (Cimi). A reportagem “A cerca que os divide: povo Munduruku do Planalto Santareno pressionado pela soja” oferece contexto complementar sobre as comunidades e o avanço da soja na região.